E se uma cirurgia pudesse trazer resultados sem nunca ter sido realmente feita? Parece improvável, mas foi exatamente isso que um famoso experimento mostrou ao mundo da medicina e da neurociência — um caso que se tornaria um dos exemplos mais marcantes do poder do placebo e da neurociência.
Na década de 1990, o ortopedista J. Bruce Moseley conduziu um estudo publicado no New England Journal of Medicine em que pacientes com fortes dores no joelho acreditavam ter passado por um procedimento cirúrgico. Alguns realmente foram operados, enquanto outros receberam apenas cortes superficiais, sem que a cirurgia fosse realizada de fato. O surpreendente foi que, meses depois, todos relataram o mesmo nível de melhora — tanto os operados quanto os que participaram da cirurgia “simulada”.
Esse resultado impactante deu força a algo que já intrigava cientistas há décadas: o efeito placebo. Mais do que um truque da mente, trata-se de um fenômeno em que a expectativa e o contexto ativam mecanismos reais no cérebro, capazes de reduzir dores, melhorar sintomas e até influenciar a recuperação.
Neste artigo, vamos explorar o que a neurociência tem revelado sobre o efeito placebo, além disso, como o estudo do joelho se tornou um marco histórico e por que o cérebro pode ser um poderoso aliado na forma como sentimos e reagimos aos tratamentos.
Placebo e neurociência: o que é e como se relaciona ao Nocebo
O termo placebo vem do latim e significa “agradarei”. No contexto científico, ele descreve uma resposta real do corpo e da mente diante de uma substância ou procedimento que, em si, não teria efeito direto sobre o problema tratado. Parece contraditório, mas a ciência já mostrou que a expectativa de melhora é capaz de ativar circuitos cerebrais poderosos.
Do outro lado existe o efeito nocebo, que funciona como o gêmeo “do mal” do placebo. Nesse caso, quando alguém acredita que algo fará mal ou não vai funcionar, o cérebro pode amplificar sintomas negativos ou até reduzir os benefícios de um tratamento. É como se a mente abrisse caminho para o desconforto.
A neurociência explica que esses fenômenos não são apenas psicológicos, mas têm base biológica:
- O cérebro libera opioides endógenos, substâncias naturais que reduzem a dor.
- Áreas como o córtex pré-frontal e a amígdala modulam emoções e expectativas.
- O sistema de recompensa também pode ser ativado, liberando dopamina, o que gera sensação de alívio e motivação.
Em resumo: o placebo mostra como o cérebro não é apenas um espectador, mas um coautor dos efeitos de muitos tratamentos. Já o Nocebo nos lembra de que expectativas negativas também têm força e podem atrapalhar nossa recuperação.
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O ensaio do “joelho simulado”: por que chocou o mundo

Em 1993, o ortopedista J. Bruce Moseley iniciou um estudo que se tornaria um marco na história da medicina. Seu objetivo era investigar a eficácia de duas cirurgias muito comuns em pacientes com osteoartrite no joelho: a lavagem da articulação e o desbridamento, que consiste em remover fragmentos de cartilagem soltos.
Para isso, ele dividiu os participantes em três grupos:
- Grupo 1: passou pela cirurgia de lavagem.
- Grupo 2: recebeu o desbridamento.
- Grupo 3: foi submetido a uma cirurgia simulada — os pacientes eram anestesiados, recebiam pequenos cortes na pele para que tudo parecesse real, mas nenhuma intervenção era feita dentro do joelho.
O resultado foi surpreendente: não houve diferença significativa entre os grupos. Tanto os que fizeram as cirurgias reais quanto os que passaram apenas pela simulação relataram melhora semelhante em dor e função. Em alguns casos, pacientes do grupo placebo continuaram apresentando evolução positiva mesmo meses depois.
Esse achado abalou a comunidade científica, pois mostrou que parte do alívio não vinha da cirurgia em si, mas da expectativa do paciente de que o procedimento iria funcionar. A força do placebo ficou evidente: a crença de ter recebido tratamento foi suficiente para ativar mecanismos cerebrais de alívio da dor.
Esse estudo não significa que cirurgias sejam inúteis, mas reforça uma lição essencial: a mente influencia profundamente a forma como sentimos dor e avaliamos os resultados de um tratamento.
Como o cérebro cria alívio: do pré-frontal aos opioides endógenos

Quando falamos de placebo, não estamos falando de “imaginação” ou de um truque psicológico. A neurociência mostra que esse fenômeno tem bases biológicas concretas e envolve áreas e substâncias específicas do cérebro.
O processo começa no córtex pré-frontal, região ligada à atenção e às expectativas. Quando acreditamos que um tratamento vai funcionar, essa área envia sinais para outras regiões, ajustando a forma como interpretamos a dor e os sintomas.
A amígdala cerebral, que regula emoções como medo e ansiedade, também participa: se a expectativa é positiva, ela reduz sua atividade, gerando uma sensação de segurança e diminuindo a percepção de ameaça.
Outro protagonista é a região conhecida como substância cinzenta periaquedutal (PAG), responsável por regular a dor. Sob efeito placebo, ela estimula a liberação de opioides endógenos — analgésicos naturais do corpo — e até dopamina, neurotransmissor associado ao prazer e à motivação.
Em termos simples, é como se o cérebro tivesse um botão interno de volume da dor. Quando acreditamos no tratamento, esse botão é girado para baixo, diminuindo o desconforto e reforçando a sensação de melhora.
Esses achados mostram que o placebo não é “só psicológico”: ele ativa verdadeiros circuitos de analgesia e bem-estar, capazes de gerar mudanças reais no corpo.
O que isso muda na prática (com responsabilidade)
O estudo do joelho e muitas outras pesquisas mostram que o contexto do tratamento tem um peso enorme nos resultados. Isso não significa que médicos devam enganar pacientes ou que terapias eficazes possam ser substituídas por placebos. O ponto é outro: expectativas positivas potencializam os efeitos reais dos tratamentos.
Alguns exemplos práticos:
- Comunicação clínica: quando um profissional de saúde transmite confiança, clareza e empatia, o paciente tende a ter melhores resultados, mesmo com o mesmo medicamento.
- Rituais de cuidado: o simples ato de receber atenção, de estar em um ambiente acolhedor e de seguir um ritual (como tomar um comprimido ou fazer um exercício) reforça a percepção de eficácia.
- Autocuidado: práticas como meditação, exercícios físicos e até o sono adequado podem se beneficiar do “efeito placebo”, pois ativam as mesmas redes de expectativa e bem-estar no cérebro.
Em resumo, o efeito placebo nos lembra de que tratamentos não são apenas substâncias ou técnicas, mas também experiências vividas pelo paciente. Quanto mais positivas forem essas experiências, maior tende a ser a adesão e os resultados.
É importante reforçar: isso não substitui a medicina baseada em evidências. O placebo deve ser visto como um aliado, e não como alternativa única. Afinal, o cérebro pode amplificar o que já funciona bem, mas não criar curas mágicas.
Limites e ética do placebo
Apesar de fascinante, o efeito placebo traz desafios éticos importantes. Afinal, em que medida é correto usar uma intervenção “de mentira” em tratamentos médicos?
No caso do experimento do joelho, os pacientes sabiam que poderiam ser designados para diferentes tipos de procedimento, inclusive a cirurgia simulada. Ou seja, houve consentimento informado — um princípio básico da ética em pesquisa.
Na prática clínica, aplicar placebos sem que o paciente saiba é considerado antiético, porque quebra a confiança entre médico e paciente. Hoje, o valor do placebo é usado de outra forma: ao reforçar expectativas positivas e criar um ambiente de cuidado, sem precisar de enganos.
Em resumo, os limites estão claros:
- Não substituir tratamentos eficazes.
- Não enganar pacientes sobre o que estão recebendo.
- Sim, potencializar resultados reais por meio de comunicação clara, empatia e rituais terapêuticos.
O efeito placebo mostra o quanto a mente é poderosa, mas a medicina ética exige que essa força seja usada como complemento, nunca como ilusão.
Conclusão
O estudo do “joelho simulado” nos deixou uma lição poderosa: o cérebro não é apenas espectador, mas coautor da nossa saúde. A simples expectativa de melhora foi capaz de ativar circuitos cerebrais de dor e gerar alívio real, mesmo sem intervenção cirúrgica.
Isso não diminui a importância da medicina baseada em evidências, mas amplia a nossa visão sobre como corpo e mente estão profundamente conectados. Mais do que remédios e procedimentos, o que sentimos também depende de confiança, ambiente e significado.
A neurociência mostra que cultivar expectativas positivas, cuidar do ambiente ao nosso redor e adotar práticas de autocuidado não apenas fortalecem a mente, mas podem transformar a forma como vivemos a saúde.
E você, já percebeu momentos em que a sua expectativa influenciou diretamente como se sentiu? Compartilhe sua experiência nos comentários — ela pode inspirar outras pessoas a enxergar o poder do cérebro de um jeito totalmente novo.

Robson M. Silva é criador do Empório da Mente e pesquisador independente nas áreas de neurociência, comportamento humano e inteligência emocional.

